domingo, 9 de janeiro de 2011

Viva os Reis!

Três dias depois da chegada dos três reis magos a Belém, deixo-vos igual número de tão nobres referências musicais que (como artista, como banda e como álbum) preenchem, de forma mais ou menos preponderante, o meu caminho pelo universo da música.

BB King

Tenho pena do quão tarde entrou na minha vida o mestre do Blues – sentimento que se estende à imprevisão temporal em que tal aconteceu (terá sido numa parceria com alguém que já admirava?).

BB King deve o duplo B ao nome que utilizava enquanto animador da rádio WDIA (o Blues Boy numa frequência AM da estação de Memphis, Tennessee). Anos antes de ocupar este lugar, Riley Ben King tivera uma infância difícil, sofrendo de perto os horrores do trabalho das colheitas de algodão – mas de tal memória não reza a história.

Foi depois de completar 26 anos de idade (1951), e imediatamente após o seu primeiro grande êxito (Three O’Clock Blues), que BB King iniciou a sua rota de longas digressões pelos Estados Unidos da América. De pequenos cafés, a salões de dança, de clubes de jazz a grandes hotéis, de pequenos auditórios aos maiores (e melhores) recintos nacionais, depressa eclodiu pelo mundo coleccionando sucessos e reconhecimento – só em 1956, BB King e a sua banda actuaram em 342 espectáculos.

Até ao ano em que o primeiro Homem pisou a lua, a carreira e o sonho de BB King tornaram-se cada vez mais reais – em 1969 é convidado para abrir dezoito concertos dos Rolling Stones, torna-se presença assídua nos maiores festivais de jazz e estende as suas digressões a todo o mundo.

A década de 70 do antigo milénio marca (e confirma) o que já muitos adivinhavam. BB King colecciona Grammys, torna-se figura de proa da música mundial, ombreando com as suas grandes figuras de referência.

Actualmente, o rei do duplo B é um lenda viva. Considerado embaixador das guitarras Gibson no mundo, continua a norte da minha orientação musical.



Kings of Leon

O culto musical dirigido por vastos grupos familiares deixou de ser novidade, tal como o facto de ilustres chefes de família apresentarem (ou presentearem) os seus não menos ilustres descendentes à comunidade musical. O que nos dias de hoje será o mais recorrente, é que astutos agregados se unam em prol do seu bem comum.

Foi o que aconteceu a três irmãos oriundos do Tennessee e Oklahoma que, numa mescla com um dos seus primos, decidiram aventurar-se pelo universo do rock – falo-vos dos Kings of Leon (nome de homenagem ao seu pai e avô).

Sendo o seu primeiro registo de estúdio fruto da nova época (leia-se EP The Holy Roller Novocain de 03 dos novos anos 00), a aventura musical dos irmãos Nathan, Jared e Caleb começa no início da sua adolescência, apadrinhada por seu pai Leon – pastor da Igreja Pentecostal – que, preocupado com as suas homilias, os colocava prontos a acompanhá-lo nos registos musicais.

Até finais do antigo milénio, os filhos de Leon passam o tempo atendendo suas às necessidades nómadas. No entanto, e enquanto aprimoravam o seu irreverente gosto pelo rock, aliam-se ao seu primo Matthew gravando o já referido EP e no mesmo ano o seu primeiro álbum – Youth and Young Manhood, inclui novos temas e algumas reedições.

Aclamados como um dos colectivos responsáveis pela nova revolução do rock, o seu sucesso torna-se evidente quando bandas como The Strokes e U2 os convidam para assegurar as primeiras partes das suas digressões.

Ao segundo álbum, os Kings of Leon não se deixam pressionar pelo peso da responsabilidade e, dando continuidade ao efusivo rock de garagem praticado até então, mostram-se inabaláveis em Aha Shake Heartbreak (2005). Para além de evidente, o seu sucesso expande-se e a sua aclamação faz com que outros grandes nomes os voltem a chamar para os seus concertos (durante grande parte de 2005 e 2006, acompanharam os Pearl Jam e Bob Dylan).

Recordando uma conferência anual de pastores que regularmente participavam com o pai Leon, o colectivo lança o terceiro longa duração em 2007 com o nome Because of the Times. Para além do reconhecimento, são divulgados os primeiros grandes números da sua carreira – com um “modesto” 25º lugar nas tabelas norte-americanas, os Kings of Leon entram directamente para o primeiro lugar no Reino Unido, vendendo 70.000 cópias na primeira semana de lançamento.

Fugindo ao antigo ditado popular, só à quarta é que foi de vez - foi na minha habitual viagem rumo à calçada íngreme e disforme da vila de Palmela, que me apresentaram os Kings of Leon. Sex On Fire, chegou pela voz da Antena 3 e à primeira audição não acendeu mais que um curto rastilho. As audições deste tema sucederam-se, até Use Somebody tomar conta do seu lugar: agora apetecia-me mais e o frente a frente com Closer (título que abre o quarto álbum de originais da banda e, para mim, o tema de abertura mais intenso do novo milénio), colocou-os definitivamente no meu rol de preferências.

Only By The Night trouxe muito mais que números e regista no diário dos norte-americanos os primeiros prémios conquistados: Grammy para melhor álbum de 2008; Grammys para melhor actuação e canção rock, ambos com Use Somebody.

Com o seu quinto longa duração disponível desde Outubro de 2010, são significativas as vozes que se erguem em defesa de que este não será um registo tão feliz e/ou eficaz como o anterior, reforçando o estatuto de Only By The Night como o melhor da banda. Radioactive, primeiro avanço de Come Around Sundown, caiu-me no colo para não mais se levantar.



King For A Day… Full For A Lifetime

Quando o ainda jornal Blitz fez manchete com uma enorme fotografia de Axl Rose de frondoso laço rosa na cabeça, lembro-me de idealizar uma imagem arruaceira daquela que é hoje uma das minhas bandas de culto: os Faith No More.

À altura do artigo, os Californianos estabeleciam-se sob a tutela de Angel Dust e temas como Easy (junto da comunidade feminina), A Small Victory e Midlife Crisis elevavam bem alto a sua bandeira. Nesta altura, os Faith No More eram já incluídos em concertos de grandes nomes do panorama musical e nada faria prever que, no final da digressão promocional deste marco de estúdio, a banda viesse mais uma vez a ser abalada pela instabilidade na sua formação.

Estávamos em Março de 1995, quando os Faith No More lançavam no mercado o seu primeiro álbum sem o guitarrista Jim Martim. Ao mesmo tempo que acrítica apontava King For A Day… como o sinónimo perfeito do carácter experimentalista de Mike Patton, Digging the Grave entrava no meu mundo musical como uma fera devolvida ao seu habitat natural – primeiro estranhando, depois triunfando.

Da amálgama sonora gerada no seu quinto registo de estúdio, nasceram os êxitos que afastaram ou deram a (re)conhecer muitos dos seus fãs: o funk de Evidence; o metal de Cuckoo for Caca; ou a bossa nova de Caralho Voador.

Caso para dizer que depois de reis por um dia, me preencheram para a vida.



sábado, 1 de janeiro de 2011

Ainda a propósito…

Ainda a propósito da minha última publicação, e depois de adquirir o último número da revista Blitz, verifiquei com agrado que da lista dos 50 melhores solos de todos os tempos eleitos por esta redacção da especialidade, se incluem alguns que tão bem ilustram a história da minha vida.
Para que fique para a posteridade, deixo-vos com as minhas escolhas da tão ilustre lista (sem qualquer tipo de ordem preferencial ou cronológica):

1 «Stairway To Heaven», Led Zeppelin, 1971


2 «Hotel California», The Eagles, 1976
(os meus primeiros baladões – reserve-se a excepção dos slows de festa de aniversário)

3 «Sweet Child O’Mine», Guns N’Roses, 1988

4 «November Rain», Guns N’Roses, 1991
(a par do número 3, a porta de entrada para os ambientes mais pesados)


5 «Bohemian Rhapsody», Queen, 1975
(a descoberta de uma lenda)

6 «Smells Like Teen Spirit», Nirvana, 1991

7 «Alive», Pearl Jam, 1991


8 «Man In The Box», Aliced In Chains, 1990
(começava-se a escrever a história do grunge, enquanto se alargavam os meus horizontes musicais)

9 «Knights of Cydonia», Muse, 2006
(a certeza de uma banda épica)


10 «Fade To Black», Metallica, 1984
(uma grande música da banda da minha vida)


11 «Sultans of Swing», Dire Straits, 1977

12 «Surfing With The Alien», Joe Satriani, 1987
(duas grandes influências do grande Zé Manel)

13 «Floods», Pantera, 1996
(surgiu na altura em que o metal perdia o seu estatuto de exclusividade)

14 «No One Knows», Queens Of The Stone Age, 2002

15 «Seven Nation Army», White Stripes, 2003
(novos fenómenos do novo milénio)



terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Air Guitar

As minhas visitas à FNAC são já um costume na quadra natalícia (como quem busca incessantemente uma nova receita, ou procura uma nova fórmula para os já conhecidos doces de Natal). A tradição voltou a cumprir-se.

Outro dos meus costumes é, e já imerso naquele universo de apelo e atracção, a também já tradicional volta de reconhecimento – as novidades e os tops, as promoções e packs económicos, as áreas temáticas (com o metal, a nova música portuguesa e a música do mundo em principal destaque), os DVD, os gadgets (onde suspiro sempre por uma abrupta queda de preço do ipod) e o vinil (na secreta esperança de que o gira disco que repousa tranquilo em casa de meus pais, venha um dia a ser meu). Mas neste ano que agora acaba, dei por mim preso a um jovem que, descontraidamente, ocupava o seu tempo (e o seu espaço) numa envolvente sessão de Guitar Hero.

Qual Kirk Hammett em pleno solo (jogava-se o temático de tributo aos Metallica) o rapaz desdobrava-se pelo corpo da guitarra (não esquecendo os pormenores de manivela indicados no visor), na tentativa de acompanhar os poderosos riffs e jogos de dedos do conhecido guitarrista. Depressa me lembrei das longas sessões de Air Guitar proporcionadas pela já desaparecida Compact da Sony, que tanto me animavam no antigo quarto do segundo andar.

A prática do Air Guitar é para muitos uma vergonha e um acto escondido, um tique inevitável e quase constante quando se assiste a um concerto, uma forma de arte e/ou uma prática (quase) profissional (de alguns anos a esta parte, são já muitos os concursos organizados).

Para mim Air Guitar foi risco, em solos desenfreados às escondidas dos meus pais, foi constrangimento, na tentativa de lhes mostrar um instrumento que só eu via, foi sonho, na espera do meu primeiro grande concerto. Para mim Air Guitar foi o primeiro sinal de uma grande paixão.


As (minhas) melhores músicas para a prática de Air Guitar





sábado, 10 de abril de 2010

Supersónico

Depois do segundo golo do Liverpool, veio a confirmação oficial. O Bandido só entrava às 22h.
Quando entrei numa Aula Magna que prometia boa assistência, estava longe de imaginar casa cheia - mais longe estava de imaginar o que teria Manel Cruz preparado para o seu mais recente projecto, Foge Foge Bandido.
Cinco minutos após o desmoronar do sonho europeu do meu Benfica (ficando na sala a solução para o problema "atraso"), o Bandido entrou em palco e pôs na mesa um dos seus trunfos (diga-se em abono da verdade, que excelentemente acompanhado de uma sólida quadrilha). Aplausos (merecidos) concluídos e senti que este não seria um concerto de ouvir e cantar, mas de experimentar.
O mote de Borboleta, a apoteose de Canção da Canção Triste, a par de temas como Canção Zero, Tempo Sem Mentira e Eleva foram as iguarias de uma noite de Luz (apenas a necessária para enquadramento dos diferentes elementos e que, na minha opinião, teria mais brilho se se mantivesse o quadro original da sala, em detrimento do fundo negro), Experiência, Som.
Se já há mistério na transfiguração de uma catedrática sala universitária numa mítica sala de espectáculos, foi sónica a forma arrojada como Nuno Mendes, Eduardo Silva, António Sérginho, Nicolas Tricot e o próprio Manel Cruz pareceram recriar um complexo laboratório experimentalista. Tudo serviu, tudo valeu, tudo se transformou - as guitarras pareciam tocar apenas o óbvio, havia uma profundidade quase nostálgica nas notas do baixo, a bateria electrónica suava a espacial, elevaram-se os sintetizadores, coroaram-se as percussões, tachos, serrotes e um ensurdecedor clarinete foram reinventados e a voz de Manel que, no sopro ou no seu esplendor, não nos fez esquecer as suas origens.
Quando se soltou este Bandido, num projecto que parecia difícil de transpor para palco e que resultava em prestações suadas e por vezes problemáticas (longe vão os tempo do Festival para Gente Sentada), poderá ter-se pensado que esta seria apenas mais uma face do homem que tornou míticos os Ornatos Violeta (curioso o facto de se terem extinto no auge e de hoje serem admirados por quem nunca teve oportunidade de os ver). Na passada quinta-feira, em duas horas de um concerto supersónico, Manel Cruz provou que este mais que projecto, é na realidade uma verdadeira banda.
Valeu a pena ter entregue o ouro a este Bandido (só foi pena o meu Benfica).










sábado, 3 de abril de 2010

Bola preta, bola branca

O que terão os nomes Volbeat, High On Fire, Fear Factory e Gojira em comum? Para já, o facto de assegurarem as primeiras partes da World Magnetic Tour em território europeu - o caso português, com maior desenvolvimento em Maio no Pavilhão Atlântico, foi resolvido com a escolha dos dinamarqueses Volbeat para o aquecimento de mais uma prestação dos Metallica em solo luso.
Quando, em meados de 2001, surge em Copenhaga uma banda com influências tão díspares como Metallica, Elvis Presley e Johnny Cash, ninguém imaginaria que teriam emergido dos ambientes death metal.
Michael Poulsen entra no mercado pela mão dos pesados Dominus e, em sensivelmente dez anos, consegue gravar duas demos e editar quatro álbuns. No entanto, cansado do panorama e das características da cena do metal mais duro, decide dar nova interpretação e novo rumo às suas influências musicais - não renegando ao que mais lhe havia motivado cria os Volbeat, nome inspirado num dos registos de originais do seu anterior colectivo (Vol. Beat).
Acompanhado pela guitarra de Thomas Bredahl, pelo baixo de Anders Kjolholm e pela bateria de Jon Larsen, Poulsen, responsável pelas vocalizações da banda e dono da sua segunda guitarra, tem conduzido os dinamarqueses num percurso pouco acidentado e bem sucedido. Viram já o seu nome aclamado em revistas da especialidade (destaque para a alemã RockHard), é reconhecida a sua energia e entrega em palco (principalmente no circuito nórdico), por diversas vezes ombrearam com alguns dos monstros da industria de peso (com a inclusão em cartazes de importantes festivais com bandas como Megadeth, Nightwish, Slayer ou Anthrax).
Por veredicto dos próprios Metallica, por questões de agenciamento, por contrato editorial ou por mera disponibilidade, alguns milhares de fãs dos Four Hoursemen terão a oportunidade (ou a obrigação) de assistir à prestação dos Volbeat em dois dias de concerto, marcados para 18 e 19 de Maio próximo, e a possibilidade de espreitar o seu novo trabalho com lançamento agendado para Setembro deste ano.


segunda-feira, 8 de março de 2010